quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Recordações

Recordo-me de uma amiga de adolescência.
Não sei o que se passou com ela depois que nos separamos nem onde se encontra hoje.
Mas sua triste história me marcou.
Ela não era de falar da sua vida pessoal enquanto acordada. Mas abria-se enquanto dormia.
Disse ela em seus sonhos que não era ouvida por seus pais.
Suas tentativas de explicitar seus sentimentos afetivos e desejos sexuais foram reprimidas.
Sentia-se desencorajada em abordar esses assuntos.
Que pena, não pude fazer nada por ela à época, porque eu não sabia falar em sonhos; apenas ouvir. Sempre fui do tipo que realizei acordado e sob a luz do dia.
Se soubesse, teria dito a ela que, apesar dos mistérios e dos tabus sociais, esse deveria ser um assunto a ser tratado como qualquer outro. E que ela não deveria sentir-se envergonhada de sentir desejo por alguém. E pior, que deveria exteriorizar seu desejo de modo responsável, observando os limites e o desejo do outro.
Anos mais tarde, um pouco antes de perder contato com ela. Ela abriu-se uma última vez para dizer a quantas andava seus desejos sexuais e sentimentos afetivos.
Disse que gostava do relacionamento estável que vivia, mas que necessitava ter casos secretos.
Casos secretos que representariam a vingança contra aqueles que a impediram de vivenciar de forma digna e responsável seus primeiros desejos.
Nesses casos secretos, fazia tudo quanto imaginava que fosse possível para desagradar seus opressores da maneira mais intensa.
Revelou, inclusive, que alguns amantes aceitavam sua imposição de manter apenas penetração anal para manter uma certa pureza da vagina, que era entregue ao namorado.
Essa foi uma das histórias mais tristemente fascinantes que conheci.
Hoje, questionei se essa pessoa havia, enfim - depois de tantos anos, concedido perdão aos seus repressores.
Espero que sim. Torço que sim. Que Deus a tenha abraçado e confortado em Seus braços.

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